Torture Squad
29/08/2008
Com quase duas décadas de estrada, um dos maiores nomes do thrash/death nacional acaba de lançar o álbum “Hellbound”, sétimo da carreira (incluindo o ao vivo “Death, Chaos and Torture Alive”). Para aumentar ainda mais a moral dos caras, pela segunda vez eles participaram do maior festival de metal do mundo, o Wacken, que acontece todo ano na Alemanha. Para falar sobre essas participações, do novo álbum, de política, da polêmica do Wacken Metal Battle e até de casamento, conversamos com Amilcar Christófaro (baterista) e Vitor Rodrigues.
Portal Novo Metal - O full-length anterior da banda, “Pandemonium”, foi lançado há quase 5 anos. Por que essa ‘demora’ para o lançamento de Hellbound?
Amilcar Christófaro - É verdade que depois do Pandemonium (2004) realmente demorou um pouco para lançarmos outro álbum de estúdio, mas não foi de besteira. A banda continuou lançando trabalhos nos anos seguintes como o nosso álbum ao vivo Death, Chaos and Torture Alive (2005), o dvd desse show em 2006 e o single Chaos Corporation em 2007 que já tinha músicas inéditas. Depois do lancamento do Pandemonium nós demos total prioridade à estrada tanto que fizemos quatro tours no Brasil sendo uma do Pandemonium, duas do ao vivo, uma do single, uma tour sulamericana na época dos cd/dvd ao vivo também, e uma na Europa com o single. Assim que voltamos pra SP e conseguirmos assinar com a Wacken Records, aí sim, o Hellbound finalmente pôde sair do estúdio e ser lançado. Mas tivemos que esperar esse tempo todo, foi extremamente necessário.
Portal Novo Metal - Como está sendo a recepção de Hellbound por parte do público? Vocês procuram saber dos comentários dos fãs em fóruns e sites da Internet?
Amilcar Christófaro - A repercussão está sendo boa tanto das pessoas que já conhecem a banda quanto as que não, e com certeza a gente fica muito feliz com isso. Sempre que rola tempo a gente dá uma olhada no que tá rolando na net em relação à banda, mas isso de forma alguma forma a nossa opinião, é mais por curiosidade mesmo. A gente ama tocar o que tocamos e isso é o que realmente importa pra gente, a nossa paixão com a nossa música.
Vitor Rodrigues - A recepção está sendo fantástica. O pessoal está curtindo o álbum e isso nos deixa felizes, e é importante saber a opinião dos nossos fãs porque são eles que nos dão o apoio necessário em todos os momentos. Nossos fiéis parceiros.
Portal Novo Metal - Hellbound pode ser considerado o álbum mais técnico da banda até hoje. A introdução [N.R: até a entrada dos vocais] de “Living for the Kill”, por exemplo, tem quase um minuto de duração. Fale-nos dessa evolução da banda como instrumentistas e como ela se deu na hora de compor as faixas do álbum.
Amilcar Christófaro - A hora de compor uma música é um momento muito natural da gente, e creio que para a música soar honesta tem que ser dessa forma. Música é uma coisa muito de feeling e você percebe se está sendo feita de coração ou não e com a gente esse momento da composição é um momento que curtimos muito estar junto e pegar as idéias de todos até chegar no resultado final que é a música. É um desafio maravilhoso (risos). Creio que de tanto você tocar seu instrumento, adquire uma certa intimidade e você mais do que ninguém sabe das suas dificuldades. Se você encara que tem que melhorar aqui ou ali e vai em busca disso você só irá evoluir, pode ter certeza.
Vitor Rodrigues - O Torture Squad foi evoluindo naturalmente. E continua evoluindo porque é uma coisa cíclica, contínua. A introdução se chama MMXII e foi criada com a ajuda do nosso amigo Fábio Laguna do Hangar. Fomos falando nossas idéias e o Fábio foi materializando-as. Em relação às músicas, elas são o resultado da evolução natural da banda. Estamos sempre inseridos na música. Estamos sempre escutando algo e aprendendo sempre com nossos mestres - Dio, Judas Priest, Iron, AC/DC e por aí vai.
Portal Novo Metal - A música “Twilight for All Makind” trata de um tema mais atual, o aquecimento global. Não é muito comum para uma banda de thrash/death. Na verdade, outros temas abordados pela banda também. Fale-nos sobre os principais conceitos líricos que vocês abordaram em Hellbound.
Amilcar Christófaro - Eu gosto muito do tipo de letra que o Vitor compõe, porque ele tem a moral de pegar inspiração do nada e fazer uma grande letra.
Vitor Rodrigues - O conceito que se formou naturalmente no Hellbound fala sobre o caos que o mundo vive, como se estivéssemos atados ao inferno (hellbound). O álbum é sobre um mundo de incertezas em que vivemos, temas que versam sobre religião, dupla personalidade, pedofilia envolvendo padres, guerra cibernética, entre outros, são o pano de fundo para o caos, esse sim o verdadeiro conceito de todo o álbum. A grande maioria das letras da banda nasce da indignação. E outras inspirações também podem vir de livros, filmes, ou da TV.
Portal Novo Metal - Por que todas as vezes que a palavra "chaos" aparece no encarte de Hellbound, ela está destacada em vermelho?
Vitor Rodrigues - Porque o caos é o grande conceito de todo o álbum. O caos da guerra, da religião, da dupla personalidade, do aquecimento global. Mas é do caos que vêm as mudanças.
Portal Novo Metal - Quem vocês acham que fazem parte da "corporação do caos" nos dias de hoje?
Amilcar Christófaro - Pra mim são todos esses políticos que fazem de tudo para ter mais dinheiro, fama e estão pouco se lixando para o ser humano. O Bush com certeza é o presidente da Corporação, mas aqui no Brasil também tem vários escondidos.
Vitor Rodrigues - A idéia da letra da “Chaos Corporation” nasceu quando assistimos o filme do Michael Moore - Fahrenheit 9/11 - onde ele cita a corporação do caos como os próprios governantes confundindo a população com idéias contrárias, como por exemplo o terrorismo. Ora dizem que está tudo sobre controle, ora falam que nada está seguro. Ou seja, controlando a todos pelo medo.
Portal Novo Metal - No ano passado vocês tocaram no Wacken representando o Brasil no concurso, este ano como uma das atrações. Qual balanço comparativo vocês fazem dessas duas participações?
Amilcar Christófaro - As duas foram animais e tiveram seus pontos altos. O ano passado porque ganhamos e assinamos com a gravadora, então foi uma alegria imensa pois sempre buscamos assinar com uma gravadora gringa e foi uma surpresa muito grande ser do jeito que foi. Esse ano foi muito legal também porque nós fizemos uma tour muito extensa na Europa antes desse show no Wacken , então foi como se com a tour a gente tivesse convidando todos para nos ver no Wacken e foi mais ou menos o que aconteceu. Tinha gente de vários países para nos ver e foi gratificante demais isso!
Vitor Rodrigues - A primeira participação no Wacken foi emocionante. Na verdade a gente aproveitaria essa chance para fazer contatos importantes. Porém saímos vencedores da competição o que valeu o contrato com a gravadora e participação efetiva no Wacken Open Air de 2008. Neste ano fizemos muitas entrevistas e trabalhamos muito mais.
Portal Novo Metal - É mais difícil conquistar o público europeu ou o público nacional? O público (do Wacken) esse ano já conhecia as músicas da banda?
Amilcar Christófaro - Eu acho que os dois, porque o Brasileiro, por exemplo, sabe valorizar quando a banda é boa ou não, então se você não for honesto em cima do palco nao vai ter boi. E o europeu também é difícil porque eles vêem muitas bandas tocando sempre, pois lá acontece show todo dia e tem milhares de bandas em tour toda hora, então eles também tem o controle de qualidade deles mas no final das contas, nós headbanger somos todos iguais, só precisamos de uma guitarra distorcida bem cortante e alta e tá tudo bem! (risos)
Vitor Rodrigues - Na verdade não existe essa comparação. O público europeu está nos conhecendo agora, é normal no primeiro momento eles ficarem apenas analisando a banda, coisa que não acontece no Brasil porque a galera já nos conhece. Alguns já conheciam as músicas, mas a grande maioria que foi assistir ao show estava vendo o Torture Squad pela primeira vez.
Portal Novo Metal - Um dos boatos que correu no ano passado foi de que já estava tudo certo para o Torture Squad ganhar o concurso do Wacken, pois a Armaggedon já tinha interesse no contrato e só usou o festival para oficializar o acordo. O que vocês acham dessa história? Na época surgiram vários comentários de que a seletiva já havia sido decidida mesmo antes de começar.
Amilcar Christófaro - Bom... Primeiro eu tenho que falar que eu nunca ouvi nada desse genero e você é a primeira pessoa que nos comenta algo nesse sentido mas a minha opinião é a seguinte: quem espalha um boato desse demostra que não tem conhecimento nenhum sobre como rola o Metal battle e suas regras, vive em seu próprio mundo e claramente tem muito o que aprender. Quem fala isso está simplesmente tirando os méritos de todos os envolvidos, da gente, da Roadie Crew que faz a edição brasileira do metal battle que ao meu ver é um divisor de águas na cena nacional , a cada um dos jurados dos 14 países diferentes que estavam lá com as suas bandas concorrendo também, do próprio Wacken que faz as edições em toda Europa e depois dá aos finalistas a grande chance de tocar a final em um dos maiores festivais de metal do mundo, ou seja, a coisa é muito maior do que boatos que são palavras jogadas ao vento, mas enfim, deixa eu acabar de responder porque argumentos é que nao faltam para responder a sua pergunta (risos). Eu sei o que vinvenciei e sei que tudo que conseguimos foi pelo nosso suor, mas quem quiser acreditar acredite, se nao, paciencia.
Vitor Rodrigues - Absolutamente sem comentários. Faço das palavras do Amilcar as minhas.
Portal Novo Metal - Nenhum de vocês é membro fundador da banda. Qual é o sentimento de estar botando pra frente uma banda criada por outras pessoas? Ainda existe o contato com todos os ex-membros?
Amilcar Christófaro - Pra mim é um sentimento normal, pois eu sou tão envolvido com a banda que é como se eu fosse um dos fundadores também. Ainda temos contato com todos e somos amigos.
Vitor Rodrigues - Sentimos que estamos mantendo o legado que o Cristiano Fusco iniciou em 1989 e pra nós é muito gratificante. Sim, temos uma grande amizade com o ele e demais membros. São nossos amigos até hoje.
Portal Novo Metal - É fato que, dentro do cenário musical, ainda existe o tão famoso jabá. Capas de revistas, contrato com gravadoras de renome, participação no cast de grandes eventos e etc. Como vocês se posicionam quanto a essa prática?
Amilcar Christófaro - Nós nunca participamos de nada desse gênero. Tempos atrás vieram várias ofertas para abrir show de banda tal mas tínhamos que pagar tanto pra ajudar nisso e naquilo. Agradecíamos a oferta e naturalmente sempre optamos por continuar na nossa estrada e fazermos nossos shows. Sempre pensamos da seguinte forma: se um dia estivermos tocando no mesmo palco com essa tal banda, vai ser por merecimento, pela nossa música, coisa que aliás, já aconteceu. Você abrir mão de alguma coisa para te faciltar a tocar em um show grande e importante é outra coisa e isso também faz parte do seu bom senso, de saber trabalhar, de saber abrir mão de coisas nas horas certas.
Vitor Rodrigues - O Brasil possui talentos em todo o território e infelizmente por causa do tal jabá esses talentos são substituídos por algo medíocre e descartável. Lamento muito esse tipo de atitude e sou totalmente contra isso. É claro que há uma diferença, por exemplo: a gravadora investe no artista, então é normal ela tentar colocar seu “produto” em um maior número de veículos de comunicação, mas infelizmente existem pessoas que não tem noção e saturam a imagem dele. Sugam até o osso e depois de “usá-lo” descartam e vão procurar por outra “moda”. Estupidez.
Portal Novo Metal - Vocês abordam em suas letras temas como caos, morte, tortura, destruição. Morando em um país como o Brasil, que vive uma espécie mascarada de guerra civil, qual a opinião da banda quanto à atual política e situação social do país?
Amilcar Christófaro - Agora que ficamos um bom tempo na gringa a gente vê que a situação econômica do pais é realmente uma merda, tá ligado? A gente passou por países bem mais pobres que o Brasil, que a moeda dos caras era quase o valor do Euro, sendo que o Euro é quase três vezes maior que o real. Então, por aí dá pra você tirar uma base. Infelizmente, eu acho que no Brasil tem muitos políticos que não estão nem aí para o bem estar do Brasileiro, diga-se também ser humano, e só querem saber de se enriquecer e não estão nem aí de como esse dinheiro vai vir. Se vier honestamente tudo bem. Aliás, é mais do que merecido, mas que infelizmente não é o usual. O normal, que é ser honesto e praticar o bem, fica uma coisa impossível pra esse tipo de gente que só vive nessa malandragem de querer se dar bem e foda-se todo mundo, e o pior de tudo é que eles é que têm o poder nas mãos. Agora particularmente eu estou querendo saber mais de política pra justamente votar em quem eu posso (tentar) ter confiança pra depois poder cobrar, eu sempre votei consciente mas agora mais do que nunca. O voto é a nossa arma e se todo mundo tiver consciência disso e não falar “nunca dará certo” ou “esse país nao tem jeito” aí que não terá jeito mesmo. A mudança começa com a prática e o hábito de cada um, assim com certeza tenho o otimismo que nossos filhos poderão viver num Brasil dos sonhos como todo gringo imagina que é.
Vitor Rodrigues - Antigamente eu não dava a mínima para a política... errado! Hoje vejo que saber sobre ela é tão importante quanto. A situação do país é estranha, temos o poder concentrado nas mãos de uma pequena porcentagem da sociedade, e temos enormes problemas a serem resolvidos. O mais importante é começar a mudar a mentalidade do povo, não devemos servir a políticos, são eles que têm que nos servir porque é através do voto que a gente o elegeu, para lutar pelo nosso direito. O país não é feito de políticos, é feito pelo povo. Pra mim, a situação política do país continua sem direção.
Portal Novo Metal - Para finalizar: vocês um dia imaginaram que iriam tocar numa festa de casamento?! (do vocalista do Trashcanned).
Amilcar Christófaro - Pois é, bem inusitado né?(risos) Foi muito legal porque nos tornamos muito amigos depois da tour de 2006 e percebemos que eles realmente queriam e ficaram felizes de termos tocados, tanto que depois do show eles nos falaram que o nosso show foi o melhor presente de casamento que eles ganharam!(risos) Isso foi em uma cidade antiga da Áustria que tem vários castelos e a festa foi em um deles. Inesquecível!
Vitor Rodrigues - Que doido!(risos) Eu me lembro que certa vez a gente estava assistindo um documentário do Iron Maiden onde tinha imagens deles tocando em uma festa de casamento, e a gente achou aquilo um barato, e agora esse lance com o Torture. O Tim e todo o pessoal da família Trashcanned são nossos amigos. Fizemos alguns shows com eles na Áustria e dali surgiu uma grande amizade. Nunca imaginaríamos que aconteceria algo desse tipo, mas foi divertido demais ver o pessoal mais uma vez em um momento tão importante na vida do Tim.
Colaborações:
Rafael Duarte
Matheus Vieira
Mara Vanessa


