Freakeys
09/08/2007
Juntar um time de estrelas para a concepção de uma obra inédita no âmbito do Metal nacional. Essa foi a receita que o tecladista Fábio Laguna (Angra, Hangar) utilizou para criar o projeto instrumental Freakeys, com seus parceiros Aquiles Priester (baterista do Angra, Hangar), Eduardo Martinez (guitarrista do Hangar) e Felipe Andreoli (baixista do Angra, Karma, Vox). Sendo assim, o Portal Novo Metal foi conversar com o mentor Fábio Laguna acerca das atividades do grupo e dos planos para o futuro dessa verdadeira “Torre de Babel” brazuca.
Portal Novo Metal - Bem Fábio, vamos começar literalmente pelo início. Quando surgiu a idéia de unir forças com seus parceiros de Angra, Aquiles Priester (baterista) e Felipe Andreoli (baixista), juntamente com Eduardo Martinez (guitarrista do Hangar), para conceberem um projeto tão ousado quanto esse primeiro disco do Freakeys?
Fábio Laguna - Quando comecei a compor o disco já havia falado com todos eles. Disse que estava querendo gravar um segundo disco solo instrumental e convidei-os para participar. Mas na primeira reunião a gente decidiu montar uma banda, já que assim todos ficariam mais livres para trazer novas idéias.
Portal Novo Metal - Realmente não me recordo de um trabalho tão relevante, completamente instrumental, e sobretudo, com participação exclusiva de músicos ligados ao Metal. Tendo como base esse ineditismo, qual a resposta que você vem obtendo sobre a aceitação de Freakeys, o álbum, no mercado brasileiro? Já existe alguma perspectiva de quando o material sairá no exterior?
Fábio Laguna - No Brasil a resposta vem sendo fantástica. A crítica geralmente torce o nariz para trabalhos instrumentais, rotulando-os como exibicionismo. Mas no caso do Freakeys (o disco) vem sendo exatamente o contrário. Alguns críticos famosos por esculhambarem o trabalho alheio aceitaram o disco muito bem. Eu realmente não sabia o que esperar porque uma das finalidades desse disco era deixar todo mundo confuso mesmo, deixar os pseudo esclarecidos na saia justa, entende? Muita gente disse: "Mas que porra de disco é esse?!" E pelo próprio pioneirismo ou falta de comparações dentro do Heavy Metal, acredito que a aceitação ou a negação do Freakeys ocorre mais espontaneamente do que em outros subgêneros mais populares. Se a pessoa gosta ou não, ela toma essa decisão sozinha, porque não vai ter como dizer, “ah, isso é melhor do que aquilo”, ou “isso é cópia daquilo”. Infelizmente ainda não conseguimos lançar o Freakeys em outros países. No final das contas, mesmo sendo um disco irreverente, ele esbarra na incômoda verdade de que estamos passando por uma crise na indústria fonográfica, devido ao compartilhamento gratuito de músicas pela internet e pela pirataria. Se uma gravadora tiver que escolher entre investir em um álbum instrumental muito louco e um disco de Heavy Metal ordinário, ela não pensará meia vez em optar pelo segundo caso.
Portal Novo Metal - Mesmo quem não teve acesso ao debut álbum, só em saber as peças que fazem parte do jogo fica evidente criar-se uma perspectiva otimista com relação ao Freakeys. E tal perspectiva é correspondida quando se pode constatar que os músicos parecem imbuídos em romperem seus próprios limites. A regra aqui é ignorar tais limites para exporem suas respectivas musicalidades? Você considera que Freakeys é prioritariamente um trabalho concebido de músicos para músicos?
Fábio Laguna - Sim, a regra foi apertar o “foda-se!!!” (risos). O álbum foi inteiramente patrocinado por uma empresa chamada Metalúrgica Mococa S/A através da Lei Rouanet. Como não gastei nada, ganhar alguma coisa pelo disco também não era objetivo principal. Queria me divertir. Não compus esse álbum para vender milhões ou para agradar alguém. Por isso posso afirmar que esse não é um disco de músicos para músicos, mas sim, um disco de músicos para a música.
Portal Novo Metal - Ouvindo atentamente o trabalho, fica evidente o cuidado exacerbado na construção de composições tão intrincadas. Existiu algum planejamento prévio do grupo para os rumos estilísticos a serem seguidos? Existiu alguma preocupação em inserir o Freakeys num segmento musical especifico?
Fábio Laguna - Planejamento?! (gargalhadas). Cara, quando consegui o patrocínio para gravar esse disco eu não tinha nem sequer as composições, quanto menos um planejamento. O grupo inteiro só se reuniu duas vezes durante toda a produção: em uma reunião para decidir se faríamos o meu disco solo ou uma banda e na audição de lançamento do disco. Não houve ensaios gerais, somente eu e o Aquiles ensaiamos. Também não houve nenhuma preocupação estilística. Os fins justificam os meios. O Freakeys é mais pesado do que o meu trabalho solo porque hoje estou inserido no segmento de Heavy Metal de forma muito mais intensa do que quando fiz meu disco solo. Foi um processo natural. Sentei na frente do teclado e comecei a “vomitar” arranjos (risos gerais).
Portal Novo Metal - Uma referência que pude associar à sonoridade do grupo foi a do projeto dos membros do Dream Theater, chamado Liquid Tension Experiment. Até que ponto estou certo na minha afirmativa? Até que ponto a banda citada inspirou seu projeto e quais as suas principais influências musicais que serviram como alicerce para fundamentar sua obra?
Fábio Laguna - Acho que você está certo se compararmos as formações das bandas. Ambas vieram de outros grupos de Heavy Metal consagrados e ambas tem a mesma formação: guitarra, baixo, bateria e teclado. Sinceramente e infelizmente não conheço a fundo os trabalhos do Liquid Tension Experiment. Garanto que não tive praticamente nenhuma influência deles para fazer o Freakeys. Prefiro beber na fonte. Acho muito mais plausível dizer que fui influenciado por Pink Floyd, Yes, Gentle Giant, ELP, Frank Zappa, etc. Além disso, pelo que conheço do Liquid Tension Experiment, eles fazem um tipo de som muito mais aberto ao experimentalismo e ao virtuosismo. Mesmo encontrando esses elementos no Freakeys, não foram os critérios que guiaram o disco. Preferi me preocupar mais com a composição em si. Tudo o que se ouve além disso foi conseqüência.
Portal Novo Metal - Confesso que precisei de varias audições para compreender a gama de informações contidas em Freakeys. Todavia, ele se configura como sendo uma compilação que agrada mais e mais a cada escutada. Você acredita que a complexidade emanada do CD afetaria diretamente na vendagem do mesmo ou vocês não estão nem um pouco preocupados com isso?
Fábio Laguna - Muito obrigado pela opinião. As estruturas das músicas são relativamente simples mas o que elas carregam é complexo. A pessoa que ouve o disco tem que ter um pouco de paciência para conseguir abstrair. Mesmo para mim isso não é diferente. Mas como disse agora a pouco, não estava preocupado em vender quando fiz o Freakeys. Se quisesse ganhar dinheiro, o primeiro passo teria sido desistir de fazer um álbum instrumental.
Portal Novo Metal - Particularmente fiquei estupefato com o feeling das ótimas: “One Cup One Lighter”, “Beetle Dance” e “On More Coffee”. Inclusive meu quadro de notícias no programa Rock Freeday Online tem como musica de fundo a “One Cup One Lighter”. Quais as músicas que mais expressam o sentido do projeto Freakeys ter finalmente saído do papel? Houveram composições que foram registradas nas sessões de estúdio desse disco e que ficaram de fora do track list final?
Fábio Laguna - Todas as músicas têm um pouco do conceito do disco, mas acho que é a faixa título que melhor define o trabalho. A maioria das outras são sui generis, como a “One More Coffee”, que remete à minha rotina no início do período de composição do disco. Depois de uns trinta dias compondo mais de dez horas por dia, minha rotina era outra: "One Cup, One Lighter, One Jack". Realmente já me encontrava em um círculo vicioso (risos). Mas tudo que foi composto para esse disco acabou entrando no track list.
Portal Novo Metal - Por se tratar de um projeto e cada um de vocês terem seus grupos prioritários, fica aquela dúvida quanto ao lançamento de outros álbuns do Freakeys. Existem planos para outros lançamentos? Caso a sua resposta seja afirmativa, já existem novas canções compostas para um futuro full lenght?
Fábio Laguna - Ainda não há músicas prontas, somente um monte de fragmentos que provavelmente serão utilizados no próximo trabalho, que dessa vez pretendemos compor juntos. O Aquiles, o Felipe e o Martinez também ficaram muito felizes com o resultado e a gente espera muito gravar um novo álbum assim que possível. Não dá pra saber quando será isso. Estamos divulgando o Freakeys, que ainda é um disco relativamente novo.
Portal Novo Metal - A banda se reuniu em algumas oportunidades em São Paulo para apresentar ao publico seu primeiro trabalho. Quais os planos para inserirem outros estados brasileiros no roteiro de shows do Freakeys? Alguma turnê está sendo organizada nesse sentido?
Fábio Laguna - Finalmente estamos conseguindo fazer alguns shows. Em julho e agosto estaremos fazendo algumas datas pelo interior de São Paulo e estamos esperando convites para tocar em outros lugares do país. Seria um prazer imenso.
Portal Novo Metal - Fábio Laguna, foi um imenso prazer ter a oportunidade de realizar essa entrevista com um musico tão gabaritado de nosso cenário brasileiro. O Portal Novo Metal, por meu intermédio, deseja a você sorte em todos os seus projetos. É chegada a hora das considerações finais, o espaço é todo seu...
Fábio Laguna - Muito obrigado pelos elogios. O prazer é todo meu. Obrigado também por permitir que pessoas estranhas, que tocam músicas estranhas, sejam ouvidas. Espero muito que o Freakeys seja um bom exemplo de que o grande barato de tocar é tocar, independentemente de rótulos. Um grande abraço a todos e que Buda os abençoe.


