House Of Mirrors
23/10/2006
Qualquer fã de Metal, assim que começa a relacionar suas bandas finlandesas prediletas, sempre acaba caindo no limbo dos grupos de renome no Brasil. Nomes como Sonata Arctica, Children Of Bodom, Stratovarius e, principalmente, o famigerado Nightwish. Bandas com uma carreira sólida, é verdade, mas é preciso dizer que nem apenas de estilos como o Heavy Metal Melódico e Gothic Metal vive a cena ‘rocker’ finlandesa. E a grande prova atende pelo nome de House Of Mirrors, trazendo em seu recente lançamento, Desolation (Escape Music – Imp), diversos hinos que o colocam como uma das principais revelações do Hard/Heavy europeu. Como uma forma de apresentação do excelente trabalho deste grupo finlandês, o Novo Metal Webzine, em primeira mão, esteve conversando com Pekka Rautiainen (vocais) e Jaakko Niitemaa (guitarra) – os dois mentores do grupo – que deram mais detalhes sobre o novo álbum, relembraram fatos embrionários da carreira e falaram dos obstáculos de executar uma proposta musical como o Hard Rock em seu país.
Novo Metal Webzine – Desolation, recentemente lançado, dá seqüência à carreira fonográfica do House Of Mirrors iniciada em Nightflight To Paradise, de 2004. Como foram os trabalhos de composição e, posteriormente, a gravação ocorrida no Valtone Record Studios?
Jaakko – Bom, eu geralmente componho em meu estúdio pessoal e quando há algo realmente pronto eu chamo Pekka e ele coloca suas idéias para finalizar a música. Após isso, gravamos algumas demos e as mostramos para os outros membros. Gravamos primeiro a bateria, depois alguns riffs de guitarra, o baixo, algumas partes vocais teclados e finalmente os solos de guitarra e os overdubs vocais. Fazendo desta forma, queremos fazer com que nosso som pareça o mais natural possível. Evitamos gravar muitos takes e editar de forma digital. Claro que algumas coisas terão de ser feitas desta forma, mas tentamos ao máximo fazer assim. Acho que conseguimos manter nossa sonoridade bem espontânea.
Novo Metal Webzine – A masterização ficou a cargo do renomado Mika Jussila, do Finnvox Studios. Por quê vocês o escolheram?
Pekka – Simplesmente porque ele era o cara certo para finalizar nosso CD. Claro que Mika tem muita experiência neste tipo de sonoridade, mas também ele é um cara muito legal e bastante profissional.
Novo Metal Webzine – Jaakko, as linhas de guitarra exercidas por você em Desolation, além das seqüências de teclado feitas por Jonne Valtonen, mesclam o estilo Neo-Clássico ao lado de uma tendência setentista do Hard Rock. Bons exemplos para isto são algumas melodias da faixa-título “Desolation” e “Broken Soul”. Esses elementos serão constantes nos próximos álbuns do House Of Mirrors?
Jakko – Quando fizemos Nightflight, nossa meta era fazer algo mais voltado ao AOR e funcionou de forma legal, mas eu sempre pensei que as primeiras versões sempre saíam muito mais leves. Eu sou um grande fã de músicos como Tony McAlpine, Jason Becker e Malmsteen e foi natural trazer alguma influência para apimentar as músicas e acredito que isso fará sempre parte do House of Mirrors. Não acho que nos tornaremos uma banda Neo-Clássica, mas serve apenas para complementar nossa musicalidade e é divertido tocar estes arpeggios rápidos.
Novo Metal Webzine – Ainda no quesito melodias, as de “Waiting In The Wings” me remeteram à música “Love Is Meant To Last Forever”, composta por John Norum (Europe) em seu primeiro álbum solo, Total Control (1987). O que tem a dizer sobre essa semelhança entre as músicas? Vocês conhecem esse tema gravado pelo guitarrista sueco?
Jaakko – Sim, ouvi este clássico de Norum. Mas se escutar de forma mais atenta, perceberá que a linha de melodia e as progressões de corda não são as mesmas. Pra mim, as melodias de “Love Is Meant To Last Forever” se assemelham mais às de músicas do próprio Europe. Claro que quando você é comparado a um mestre da música você fica honrado, isso é muito comum.
Novo Metal Webzine – Gostaria de saber mais detalhes sobre a faixa “Gone With The Summer”, que transita por uma sonoridade mais moderna, onde encontramos até alguns samplers. Essa veia estilística adotada para esta canção teria a proposta de viabilizá-la como um single de Desolation?
Jaakko – “Gone With The Summer” é, atualmente, a faixa mais velha do disco. Ela foi originalmente composta em 1998 e deveria ter sido gravada com uma vocalista feminina nos vocais e lembrava muito mais uma música de discoteca do que é agora. Por algum motivo não finalizamos a composição e ela veio parar em Desolation, acho que ela deu uma nova vida ao disco, é uma faixa legal. Sempre admirei bandas como o Queen porque eles sempre tiveram coisas diferentes em seus discos, como Rock, Metal, música clássica, etc.
Novo Metal Webzine – Pekka, suas linhas vocais se portam de uma forma bem versátil dentro do instrumental composto, com elas se encaixando perfeitamente nos diversos seguimentos distintos encontrados no álbum. Por quanto tempo você trabalhou nestas melodias?
Pekka – Obrigado pelos elogios. Neste CD eu tentei criar um estilo diferente de cantar, por isso as músicas não possuem uma linha estilística uniforme, convencional. Após Jaakko ter finalizado as demos, eu comecei a ensaiar as músicas. Ouvia muitas vezes e repetidamente as músicas em meu carro e lá você pode gritar bem alto! (risos) Vou lhe contar um caso engraçado: numa destas vezes que eu estava gritando no carro, toda hora que eu parava numa sinaleira as pessoas costumavam olhar pra mim e dar risada. (risos). Mas voltando... Após estes ensaios no carro eu entrei num estúdio de um amigo meu e gravei as demos dos vocais. Finalizada esta etapa, fui ao estúdio Valtone e gravei as partes consolidadas e os backing vocals.
Novo Metal Webzine – O campo lírico de Desolation preza por ótimas letras. Para vocês, quais aquelas que mais os agradam pela mensagem passada?
Pekka – Acho que a faixa-título possui uma letra muito forte e poderosa. Vivemos nossas vidas num mundo grande, onde existe muita confusão, raiva, frustração, mas muita beleza se você puder ver por outro lado. Acredito que as pessoas podem escolher dois caminhos: o da luz e o da escuridão. “These Chains” é uma das minhas faixas favoritas porque a letra e as melodias estão em perfeita harmonia. Esta música possui um bom humor muito grande. Claro que também devo citar “Gone with The Summer” que também possui uma mensagem maravilhosa. Seria legal se as rádios divulgassem esta composição. Ela passa um carma bem positivo. É uma música um pouco diferente, mas ela é muito boa.
Novo Metal Webzine – Apesar da inserção de uma semente mais contemporânea, o estilo base encontrado nas composições do House Mirrors é o Heavy/Rock feito nos anos 70 e o grandioso Hard Rock oitentista. Sendo a banda oriunda da Finlândia, que não tem um background nestas vertentes, são muitas dificuldades para obter um respaldo significativo apresentando esta proposta musical em seu país?
Pekka – As grandes gravadoras não querem assinar com bandas como a gente porque não estamos na moda, elas querem vender milhões de discos praticamente da noite para o dia. Existem muitas poucas rádios que tocam nosso estilo musical, além de ser muito difícil de conseguir tocar ao vivo até mesmo em nosso próprio país. Espero que as coisas mudem. Estou muito contente que uma rádio de nossa cidade tenha disponibilizado a música “Where Are You Now” na sua programação. Isso não acontece toda hora. O mundo dos negócios é difícil, pois uma estrela da música pode ser esquecida em um curto espaço de tempo e a grande maioria das pessoas se esquecerão dela.
Jaakko – Dez anos atrás a revista inglesa Hard Rock foi mais uma maldição do que uma bênção aqui na Finlândia, por assim dizer. Eu ainda lembro quando as pessoas riram da gente quando falamos à revista que tocávamos Melodic Hard Rock. Era praticamente impossível assinar com alguma gravadora e perguntas como “você acha que a música irá lhe levar a algum lugar?” eram freqüentes. Não temos notícia de nenhuma banda finlandesa do estilo que tenha dado certo fora daqui, mas felizmente as coisas vêm mudando aos poucos, porém ainda muito devagar e continua muito difícil. Para você ter idéia, nenhuma gravadora investe numa banda do tipo, bancando videoclipes, promovendo turnês, etc. Felizmente já deixamos nossa pequena marca na cena finlandesa de Rock. Mas enfim, quem se importa com isso?! (risos)
Novo Metal Webzine – Outra coisa interessante para ser abordada sobre você, Pekka, é o período que, atendendo pelo nome de Julius, houve o seu ingresso na música pop e que, inclusive, rendeu-lhe um contrato com a gigante EMI. Naquela época, um dos momentos marcantes foi consolidar-se como ‘oppening-act’ de um show da artista Tina Turner, perante 50.000 pessoas no Helsinki Arena. Enfim, como foi essa experiência neste mercado mainstrain? O que o levou a não continuar nesse caminho em sua carreira?
Pekka – Isso. (risos) tudo aconteceu há mais de 10 anos atrás e foi uma experiência maravilhosa. A EMI me ligou e me perguntou se eu queria abrir um show no estádio Olímpico de Helsinque para a lendária Tina Turner. Eu prontamente aceitei a oferta. Lembro que acordei muito cedo no dia do show, desci do quarto do hotel e dei uma volta pela cidade pensando neste grande dia de minha vida. Após a saída eu encontrei com o restante dos músicos da banda e fomos comer uma comida indiana, que era muito gostosa, por sinal. O tempo foi passando e de repente me dei por conta que estava naquele lugar enorme, as pessoas chegando cedo e se aglomerando na frente do palco. Quando subimos no palco senti uma sensação muito legal e divertida que eu nunca irei esquecer. Após a apresentação eu estava na área VIP e quem estava lá? A própria Tina Turner em pessoa, bem em frente a mim. O pessoal da EMI disseram a ela que eu era um novo artista do cast da gravadora na Finlândia. Ela apenas me desejou sorte e o melhor pra mim. Sobre minha fase pop, gosto do estilo, mas ele é muito leve para expressar o que eu sinto. Acho que é importante ouvir de tudo um pouco, como as pessoas utilizam suas respectivas técnicas para criarem novas coisas dentro da música. Penso que devemos ouvir para aprendermos.
Novo Metal Webzine – Quais as lembranças da época em que deram os primeiros passos do que seria o House OF Mirrors ao formarem, juntos, o Wardance?
Pekka – Tivemos uma ótima banda chamada Wardance e eu costumo dizer que éramos batalhadores. Gravamos algumas demos bem precárias e filmamos alguns shows ao vivo, mas no início dos anos 90 veio o Grunge e nosso estilo não estava mais entre o preferido do pessoal. O cara responsável pelas letras do House of Mirrors, Kari Riihimäki, tocou guitarra comigo no Wardance e ainda foi o compositor. Ele é um ótimo músico.
Novo Metal Webzine – Prezados Pekka e Jaakko, a entrevista termina neste momento. Fica aberto o espaço abaixo para as suas considerações finais destinadas ao público brasileiro.
Jaakko – Quero agradecer a todos que leram esta entrevista e ouviram nosso CD. Ayrton, obrigado pela entrevista. Espero vê-los algum dia por aí. Cuidem-se!
Pekka – Desejo o melhor para vocês. Continuem ouvindo o bom e velho Hard Rock/Heavy Metal. Espero algum dia poder visitar seu belo país e tocar para muitos brasileiros.
Fotos: Divulgação


