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Hangar, Lost Forever, Prelludium - Rio de Janeiro (13/07/2008)
13/07/2008
Metal Nacional de qualidade dá o troco contra a falta de criatividade, mas público deixa a desejar em um espetáculo de primor técnico do Hangar e da equipe de produção.
Domingo de temperatura agradável no Rio de Janeiro e vamos que vamos, outra grande realização da Tríade de Aço - que por sinal completará 03 anos de atividade. Para quem ainda não conhece, trata-se de uma iniciativa espetacular de três produtoras distintas (Rato no Rio, Fashion Produções e Rio Metal Works) que se uniram por uma causa das mais nobres possíveis: produzir eventos underground de qualidade, apostando na profissionalização e em um esquema de divulgação amplo, dando espaço para grandes bandas nacionais - por enquanto - e novas bandas também, principalmente do cenário carioca - 100% voltados para o Heavy Metal e seus subgêneros. Eu nunca vou cansar de elogiar este tipo de iniciativa, que, assim como em Caxias como o ALL ROCK POINT já possuem alguns novos seguidores, como é o caso da Full Metal (que realiza eventos em Campo Grande) entre outras que vem surgindo. Resumindo, a galera aqui no RIO DE JANEIRO está se esforçando como eu nunca vi antes para um caminho de profissionalização do cenário underground. Mas ainda falta ao povo acreditar nisso. E ter consciência.
Primeiro de tudo: Eu nunca antes, em vinte anos cantando em bandas de heavy metal, ouvi um discurso pedindo APOIO às bandas autorais. Isso simplesmente é ridículo. Nunca antes eu vi tanta gente querendo desesperadamente ser iguais ao Steve Harris, iguais ao Metallica, igual ao Iced Earth, seja lá quem for, estão esquecendo de ser ELES MESMOS - e por aí vai - e o fato é que a nossa cena está infestada pelos famigerados COVERS, os maiores ladrões de música e talento da história, que trabalham muitas vezes para saciar egos, divulgar de graça as próprias bandas mencionadas e encher o bolso de dinheiro de certos produtores inescrupulosos. Eu respeito o livre arbítrio e todas as formas de manifestações culturais válidas, entendo que muita gente quer se divertir e homenagear seus ídolos, quase todo mundo já fez isso, mas é muito mais bonito ver as pessoas fazendo e divulgando suas próprias músicas, com seu próprio estilo. Você que faz cover estará sempre à sombra de seu ídolo ao invés de ser UM ÍDOLO. Desculpe, sou um pouco mais pretensioso com meu trabalho, amigos, eu e muitos músicos que estão aí ralando tanto há muitos anos como quanto outros que começaram há pouco tempo, mas sempre apostando em um trabalho próprio. Eu estou do lado de quem faz e não de quem copia. Quem apenas COLA deveria sair da escola. Eu sei que algumas pessoas vão ficar magoadas comigo ao ler esse texto e podem me criticar a vontade, mas - meu amigo - fomente a criação ao invés de copiar o que é dos outros e tente o sucesso de forma honesta, sem furar olho de ninguém. Metal não é SÓ DIVERSÃO. Metal é um movimento sério, de gente honesta e que ama a música, é uma FILOSOFIA DE VIDA, acima de tudo. E vamos nos unir, ok? Ao invés de ficarmos só em casa, em frente ao computador ou achar que somos os fodões porque também temos uma banda e não vamos apreciar as bandas dos colegas e - com isso muitas vezes, perdendo a oportunidade de nos surpreendermos com espetáculos de bandas nacionais underground, como foi o caso ontem, amigos. Como foi o caso ontem! Eu disse ESPETÁCULO, amigos!
Bom, depois deste longo texto de introdução, que fiz mesmo para situar as pessoas sobre o que está acontecendo em nosso cenário (tanto bandas, público quanto produtores, todos nós estamos no mesmo barco e queremos sempre o melhor tanto para nós como para a cena como um todo) e do puxão de orelha (desculpem amigos de bandas cover, estou falando isso pelo bem de vocês também, cover NÃO TRAZ progresso pra gente, para o HEAVY METAL carioca ser respeitado como forma de fomentação de cultura).
Agora vamos falar do SHOW em si, não? Com cerca de 300 headbangers presentes (abaixo do esperado, infelizmente) e após um certo atraso, a banda PRELLUDIUM começa sua apresentação após ser anunciado efusivamente pelo nosso amigo batalhador Adam Alfred, o Cowboy From Hell carioca, com seu chapéu de couro maneiríssimo e sua voz incitando os presentes sempre a apoiarem a cena. O quinteto carioca, formado por Jean Rangel (voz), Leonardo Pimenta (guitarra, ex-Endless), Orlando Fiori (teclado), Luiz Freitag (baixo) e Thiago Alves (bateria), detonam um pesado power metal com traços de prog aqui e ali, bem voltados para a melodia e calcados em nomes como Symphony X e Yngwie J. Malmsteen, mas evidentemente buscando por uma personalidade. Abrem o set com a rápida “Of Blood and Tears”, evidenciando como destaque os dois bumbos muito bem executados pelo excelente batera Thiago. O line up é muito entrosado e corretíssimo e, a despeito da pouca experiência, ainda, os caras tem um grande cuidado com a qualidade, sem esbanjar virtuosismo desnecessário e se concentrando nas melodias das músicas, que é o forte do grupo. O show segue com “Whisper” e o cover de “Never Die” do já citado Malmsteen. Apesar do som ter pecado seriamente em praticamente toda a apresentação (haviam momentos que uma das vozes sumia, a guitarra ficava muito baixa e a bateria mais alta), os cariocas não desanimaram e ainda nos brindaram com uma ótima composição própria, a linda balada “Farewell” que contou com a adição de dois violões e dois convidados especiais: Gabriel Victorino (violão) e a cantora Jamila Farah, que acrescentou mais doçura a essa bela música. Tenho que parabenizar a banda que proporcionou um dos melhores momentos do evento. Lembrando que essas músicas estão sendo gravadas para o lançamento do Demo-EP “Messiah”, em breve vocês poderão conferir através do myspace deles (links, abaixo da matéria). Dando prosseguimento ao set, a veloz “Infinite” encerrando com o dispensável cover de “Eve of Seduction” do Symphony X (nada contra, mas eu queria ouvir mais material do grupo). Os cariocas deixam o palco sob aplausos, pois agradaram a platéia presente. Os músicos, em geral, são muito bons, não há um grande destaque individual, possuem um vocalista afinado (quesito raro hoje em dia, infelizmente) e todos estão de parabéns pelo ótimo trabalho!
Após o show, eu aproveitei para puxar uma cadeira e me sentar em frente a um telão (ótima idéia da produção, colocar um telão à parte do palco) que passava clipes de vários clássicos do metal, não deixando a galera ficar entediada um minuto sequer! Sem notar o tempo passar, a banda LOST FOREVER, mais conhecida do público carioca, começa a preparar a sua apresentação e após uma introdução começa o set de forma mais pesada e sinistra do que o habitual com a sombria e rápida “Sheltering Darkness”, música que fará parte de seu novo trabalho NEXUS, que está em fase final de preparação. Creio que este show foi praticamente um pré-lançamento deste trabalho, já que a ênfase do repertório foi em novas músicas - excelentes - por sinal. Com a voz de Hugo Navia afinadíssima e mais agressiva do que o habitual, a banda deixa todos de queixo caído com o primor técnico da execução, a qualidade do som (que melhorou consideravelmente) e a performance dos músicos, que apresentava novos integrantes (o tecladista Hudson Guedes e o guitarrista Leônidas Martins). Muito bem ensaiados e bem entrosados, o sexteto emenda a poderosa “Aletheia”, que me surpreendeu por mesclar momentos de um quase metal extremo (thrash metal veloz mesmo!) e voz rasgadona junto com o já característico prog-metal multi-diverso e virtuoso da banda. Amigos, como eu gosto disso! Conversando com o guitarrista e amigo da época em que residia em Porto Alegre-RS, Eduardo Martinez (ex-Panic e atualmente no HANGAR) este me contou que uma das tendências atuais do METAL é exatamente essa, derrubar sub-rótulos e mesclá-las, tornando o amplo termo Heavy Metal uma coisa unificada, com seus momentos mais brutais, mais cadenciados, mais complexos e também mais diretos. Isso eu pude conferir de perto principalmente no show dos colegas do LOST FOREVER. Infelizmente o show sofreu uma inesperada pausa devido à pele do bumbo do baterista René Shulte o que fez com que meus amigos tivessem que cortar algumas músicas para não extrapolarem o tempo de apresentação, pois estavam ali fazendo o papel de banda convidada.
Após pequenos improvisos do guitarrista Fabbio Nunes e do tecladista Hudson, a banda que também conta com a presença do excelente André de Lemos, no baixo, continuou a apresentação com um cover (desculpe, amigos) também dispensável, do SYMPHONY X, com “King of Terrors”. Eu sei que essa banda tem muitos fãs, eu não vou dizer que sou um deles apesar de ouvir alguma coisa, mas eu queria ouvir mais LOST FOREVER, entre elas a música The Lies Behind the Mirror, do primeiro CD dos caras “The End of Beggining” de 2004 que infelizmente não pode ser executada devido ao já citado corte do set list, assim como “Mater et Magistra”. Para quem curte o trabalho do grupo (que já tem longos anos de batalha aqui no cenário carioca, eu mesmo já tive a oportunidade e o prazer de dividir o palco com eles em algumas e memoráveis ocasiões) essas músicas fizeram falta. Continuando o show mais outra excelente música nova: “Rising”. Pelo que eu pude conferir no myspace deles, o próximo CD “Nexus” está DO CARALHO, com uma excelente produção e as composições, além de bem mais pesadas, estão mais maduras e até mesmo mais complexas. Eu garanto, excelentes! Para os fãs de metal mais exigentes e despreocupados com sub-rotulações desnecessárias, a audição - e aquisição deste novo trabalho é indispensável. Orgulho para nós, do cenário carioca! Encerrando o set list, um medley bem sacado de covers do METALLICA com momentos de Masters of Puppets, Seek and Destroy, Enter Sandman e One, promovendo o primeiro momento de maior agitação entre a platéia presente, como havia de se esperar!
Após mais telão e fazer um lanche básico, voltamos para a frente do palco para a apresentação principal, dos gaúchos - agora radicados em São Paulo - do HANGAR.
Resumindo sobre eles, foi a banda que revelou ao Brasil e ao mundo, o baterista fenômeno Aquiles Priester, que ganhou grande notoriedade com seu trabalho junto ao ANGRA alem de ter gravado disco com o ex-Iron Maiden PAUL DI’ANNO, fazer parte do projeto Tritone (com guitarristas virtuosos do porte de Edu Ardanuy do DR. SIN, o conterrâneo Frank Solari e o carioca Sérgio Buss - que toca com STEVE VAI). Atualmente Aquiles é considerado um dos melhores bateristas de Heavy Metal do mundo devido a sua precisão, pegada pesada e rápida com uma performance destruidora.
Com três trabalhos lançados mais uma participação no projeto HAMLET (CD conceitual lançado pela gravadora DIE HARD no ano de 2001, que conta com diversas bandas da cena nacional, cada uma interpretando parte da ópera, entre elas o grupo de Edu Falaschi - Symbols, Torture Squad, Tuatha de Dannan e os cariocas do Imago Mortis, humilde banda deste que vos escreve) o HANGAR divulga agora o seu mais recente - e excelente - CD “The Reason of your Conviction”. E, com a pausa no ANGRA, grupo principal de Aquiles, este resolveu apostar mais no HANGAR, que teve cacife e montou uma estrutura de primeiro mundo, investindo pesado em merchandising, equipamento, produção visual do palco e dos músicos transformando este time em uma máquina muito bem azeitada e profissional.
Ao contrário do que muitos podem pensar, ao mesmo tempo que a presença deste músico celebre traz muito mais atenção a sua banda, as cobranças dos exigentes metalheads é ainda maior, portanto exige muita responsabilidade. E o time teve cacife para isto também. Com a presença de músicos talentosíssimos e já cascudos do cenário nacional, como o baixista Nando Melo (já quarentão, eu conheci este cara quando ainda morava no sul e ele já tinha banda na época, o grupo progressivo Fohat, de Gravataí-RS, cidade onde eu morava), o Ex-Panic (uma das melhores bandas de thrash-metal da história do RS, com 03 plays lançados e inclusive com clipes memoráveis que passavam na MTV como é o caso da divertida Shoobydahbydoobah Porto Alegre é meu lar) acrescentada do conhecidíssimo Fábio Laguna (ANGRA) e, agora, contam com um novo vocalista, o fenomenal Nando Fernandez, paulista, capaz de mandar agudos a lá Eric Adams (Manowar) além de desfilar uma voz limpa invejável no nível de um Michael Kiske. Não preciso falar mais nada, amigos, com um time de feras deste naipe e uma estrutura profissional nível A, montada, não dava para esperar outra coisa além de um show de deixar o público, dentre eles muitos músicos aqui do Rio, de queixo caído. Fizeram um show perfeito, destruidor. Não vou citar faixa por faixa, pois a resenha está muito grande, mas vou destacar alguns momentos. Os cariocas, a maioria deles, não estava a par do repertório dos caras. Mas algumas chamaram mais a atenção como “To tame a land” (do segundo CD “Inside your soul”), a cadenciada e melódica “Calm me in the name of death” - que possui um vídeo-clipe maneiríssimo, disponível no myspace dos caras - e que o vocalista cantou com uma máscara a lá Hannibal - The Cannibal - Lector, “Captivity”, do disco novo, pelo seu ritmo diferente, abrasileirado, algo como uma embolada-metal com uma levada exótica e quebrada de Aquiles Priester. Evidentemente a banda toda deu um show de competência, o som estava perfeito - praticamente mesmo nível que show internacional, talvez uma das melhores qualidades de som que eu já ouvi em eventos de underground - tudo perfeito, bem timbrado, nítido e alto, pesado, bem pesado. Impressionante realmente. Muita gente, inclusive eu, não esperava nem a metade do primor técnico apresentado. Os caras vieram realmente armados até os dentes para alavancar a carreira de vez! Deram um show de bola! Arrasaram e com sobras. Nota 10! Apesar de não precisar, ainda colocaram covers bem selecionados no set list para empolgar aqueles que não os conheciam e também para mostrar um pouco de suas influências. “After All” (Black Sabbath, do álbum Dehumanizer) foi o momento DOOM do show... Espetacular, pena que muitos bangers não conheciam. Ao contrário de “Perfect Strangers” do Deep Purple, cantada em uníssono. Como se ainda não bastasse, os caras apelaram de vez e detonaram um medley do IRON MAIDEN, para delírio de todos, que incluíam músicas como “Hallowed be thy name”, “Aces High”, “Be quick or be dead”, “Fear of the Dark”, “Revelations”, “Sign of the Cross”, “2 minutes to midnight”, “Loneliness of a long distant runner” e “Wasted Time” fechando a apresentação da forma mais memorável possível. Eu aplaudi de pé e torço pelo sucesso destes caras e de muitas outras bandas daqui deste nosso pobre e subestimado país que tem tantas bandas destruidoras, falta o nosso público, nossos amigos e fiéis companheiros headbangers se conscientizarem e comparecerem em maior número aos shows nacionais! Qualidade, nós provamos que temos e condições de fazer frente com os grupos gringos, há muito tempo que com certeza temos!
Links para ouvirem o trabalho das bandas:
PRELLUDIUM
http://www.myspace.com/prelludiumonline
LOST FOREVER
http://www.myspace.com/lostforeverofficial
HANGAR
http://www.myspace.com/officialhangar
Curiosidade:
http://www.youtube.com/watch?v=yT_UFGueKwk
Eu engrosso o coro e grito VIVA O METAL AUTORAL!
Essa “guerra” está começando a ser vencida!
Fotos: Lívia Bueno. Cedidas gentilmente pelo site Rio Underground.
Agradecimentos especiais: Adam Alfred, Edmilson, Marcelo “Rato no Rio” e Felipe Lameira por ajudar a encorajar, aumentar a nossa moral e possibilitar o ressurgimento do movimento de metal no Rio de Janeiro.


