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Wacken Metal Battle - Salvador (08/04/2007)
08/04/2007
A cidade de Salvador - e porque não toda a região nordeste? - entrou com toda certeza para a história do Heavy Metal brasileiro na tarde-noite de 8 de abril. Na referida data foi realizado o pioneiro festival Wacken Open Air Metal Battle, evento este que selecionou, por meio de um corpo de jurados, uma banda dentre as oito participantes: Veuliah, Slow, Infested Blood, Scud, Siege Of Hate, Chaosphere, Harllequin e Hostile Inc. (exceto a Ungodly por ser umas das três anfitriãs e convidada especial) de cinco diferentes Estados brasileiros: Bahia, Recife, Brasília, Piauí e Ceará, para uma vaga na grande final em São Paulo. Nessa ocasião os campeões de todas as seletivas regionais se enfrentaram visando uma vaga para representar o país no Wacken Metal Battle alemão. Levando-se em conta tais elementos, ficou evidenciado que todos os participantes dignificaram (com sobras), a oportunidade singular de tentarem representar o Brasil no maior festival de Metal do planeta, o Wacken Open Air, como veremos a seguir.
Infelizmente com o público ainda adentrando, vagarosamente diga-se, as dependências do Rock In Rio Café, a promissora Chaosphere (PE) inicia seu set calcado num Thrash Metal técnico e cativante. O quarteto se mostrou uma extraordinária escolha para a abertura do festival, alicerçado, fundamentalmente, pela qualidade descomunal de seu arsenal sonoro e pela desenvoltura apresentada em cena. Num híbrido de agressividade e melodia, a banda apresentou cinco composições que estarão em seu vindouro debut CD, intitulado Hell Is Here. Nesse sentido, é pertinente salientar que, o equilíbrio salutar dos temas: “Welcome To The World”, “March Of Time” (fantástica) e “Side By Side”, revelam toda a maturidade de uma formação que tenderá, em muito pouco espaço de tempo, a ser uma das principais representantes do estilo no país.
Com apenas dez minutos do término do show anterior - ponto positivo para a produção nesse aspecto -, eis que os cearenses da Hostile Inc. entram em ação, destilando toda a fúria contida no seu Death/Black Metal Sinfônico. Nessa altura do campeonato, atentando-se aí para o sentido literal do termo, a casa já recebia um número considerável de bangers para prestigiar a segunda atração da maratona que se seguia. Sendo assim, o trabalho do sexteto, que está prestes a lançar Qiyamat - seu primeiro full length em onze anos de estrada -, se tornou mais simples do que seu antecessor devido, principalmente, ao apoio desprendido por uma platéia mais numerosa. Títulos sugestivos como: “Alea Jacta Est”, “Fast Motion” e “Le Petit Morte”, foram a tônica de um show arrebatador, concentrado no álbum supracitado, para então se despedirem deixando uma ótima impressão a todos.
Em pleno processo de divulgação de seu primeiro registro de estúdio, o complexo EP Killer Mermaid, a Slow foi a próxima a ser avaliada no embate metálico. Emanando complexidade e bom gosto extremado em seus temas, os baianos foram os representantes do Prog/Metal no festival, e não decepcionaram! Com uma postura intimista, exemplificada na figura do carismático baixista Joel Moncorvo (Ungodly), e músicas do calibre das já conhecidas “Killer Mermaid” e “The Illusions”, foram responsáveis por delinearem novos caminhos na seqüência das atrações naquele momento. O curto set de quatro canções ainda teve espaço para “Blood Secret”, que estará no seu próximo trabalho de estúdio, concedendo números finais de uma participação correta e bem quista pelos presentes.
Tendo acabado de lançar no mercado seu segundo artefato, Tribute To Apocalypse, após um hiato de quatro longos anos, o Infested Blood invade a arena do Metal Battle com a artilharia pesada de seu Brutal Death Metal. Influenciados pelo Cannibal Corpse no inicio de carreira e Disgorge, o time capitaneado pelo guitarrista Diego Araújo não poupou esforços para desferir com muita atitude sua proposta artística. Mesclando hinos de suas duas compilações, em pouco mais de vinte e cinco minutos, os Deathbangers foram agraciados com as novas: “Impaler Deeds”, “Possessed By The Blood” e “Those Who Defy”, aliadas com “Feeding The Will” e “Spiritual Anthropophagy” do consistente Masters Of The Grotesque. Partindo do que fora descrito, a passagem dos pernambucanos foi rápida, direta, e deveras impactante. A sensação de que algo faltou pairou no ar, mesmo que, o comprometimento com o ideal de ser underground tenha se sobressaído.
Composições primorosas, empatia com o público, cênica de causar perplexidade, e uma gana poucas vezes vista. Esses foram os aspectos que mais saltaram aos olhos e ouvidos diante da presença do Harllequin, nova empreitada de Mario Linhares (ex-Dark Avenger, Khallice), em solo baiano. Tive a oportunidade de conferir a estréia da banda no Brazil Metal Union de 2005, mas nada se compara ao que fora constatado no Wacken Metal Battle. Definitivamente, o Harllequin, mesmo sem ainda ter um álbum na praça, está pronto para o mercado internacional tamanha é a desenvoltura de seus músicos em cena. O que mais chama a atenção, além da enorme experiência de Mario Linhares, é a unidade de todos os componentes em prol de difundirem a concepção de uma nova linha tênue que separa o Metal Tradicional do Metal Extremo. Caros leitores, tentem imaginar climáticas essenciais de King Diamond, riffs de cunho Thrash Metal, aliados à flertes típicos do Death Metal da escola estaduniense! Conseguiram? Pois é, realmente chega a ser utópico imaginar uma junção dessas. Todavia, para espanto de todos, a proposta dos caras é extremamente consciente, de eficácia impar e funcionalidade comprovada. Para os saudosistas que ainda ouvem com louvor os clássicos que o Dark Avenger deixou para a posteridade, inclino-me a aconselhar-lhes nomes como: “Over Shadow”, “King Of The Dead”, “Away” e "Hellakin Riders”, como novos candidatos a hinos do Metal tupiniquim. Simplesmente Fantástico!
Ainda me recuperava do espetáculo proferido pelo Harllequin quando me deparei com os membros do Siege Of Hate indo em direção ao palco. Mal sabia eu o que estava por vir a partir daquele instante. É chover no molhado, principalmente para aqueles que acompanham o underground brasileiro, citar a competência e, sobretudo, integridade do baixista George Frizzo (ex- Insanity). O cara é responsável, "apenas", por transformar um mero projeto paralelo no principal nome do Grindcore brasileiro. O leitor tem dúvidas acerca dessa afirmativa? Não deixem de conferir um show dos cearenses do Siege Of Hate antes de tecerem qualquer tipo de comentários imprecisos. A intensidade da apresentação é algo que impressiona de imediato, fundamentado pela incessante violência sonora extraída das dezoito músicas executadas naquela situação. A adrenalina do conjunto ganha ares de surrealismo quando observado a reação de todos os presentes, diante de uma performance digna do efeito causado por uma bomba de nêutrons. O fato é que, mesmo sendo uma das candidatas mais fortes a vaga para a grande final em São Paulo, transpareceu acima de tudo o prazer de estarem divulgando seu trabalho pela primeira vez na Bahia - desta feita, o split Out Of Progress com a banda canadense Time Kills Everything -, exaltando a relevância que seu histórico sugere. Memorável!
O ritmo frenético da seletiva parecia ter alcançado seu ápice com a esmagadora participação do Siege Of Hate. Entretanto, era chegado o momento do representante mor do Dark Metal brazuca, os baianos do Veuliah. Com os Metalheads literalmente em suas mãos, o vocalista Fabio Gouvêa mais parecia um regente a frente de seiscentos fãs que não pararam de interagir um só segundo. As canções do debut, Deep Visions Of Unreality, obteram uma das repostas mais favoráveis até então. E nesse caminho eles percorreram com enorme empatia passando por “The Oldest One”, “Ego Et Alli”, “Immortal Thoughts”, passando pela épica “Black Spirit” até uma versão extrema para “Iron Maiden” da donzela de ferro, que os credenciou como peça chave na disputa. Além de um set list muito bem escolhido, que permitiu uma cursiva demonstração de todo seu potencial musical, o Veuliah demonstrou que mesmo inserido num segmento que preza a cadencia em suas estruturas, garantiu a atenção da platéia com sua homogeneidade melódico-agressiva.
O power trio Scud, oriundo do Delta do Parnaíba-PI, foi o último grupo a se lançar frente ao público e jurados, antes do anuncio do grande vencedor a vaga na finalíssima em São Paulo. E pra quem imaginou que seu show apenas cumpriria tabela, por virem de um estado que dificilmente revela grandes nomes no cenário, se enganou copiosamente. Pragmáticos sim, irrelevantes jamais! Com essa expressão seguida a risca, Marcelo Alelaf (vocalista e guitarrista), Fábio da Nasc (baterista) e o irreverente Fawster Teles (baixista), desprenderam uma avalanche de riffs certeiros sob a roupagem do bom e velho Thrash Metal. Com nítida influência dos paulistanos do Korzus, principalmente do que tange as linhas vocais e o teor cíclico de modernidade na espinha dorsal de todas as músicas apresentadas. Chega a ser impressionante a similaridade no timbre vocal de Marcelo Alelaf com o de Marcello Pompeu (Korzus). Entretanto, é importante que se diga que, tal fato não assumiu caráter pejorativo, muito pelo contrário diga-se. Músicas de seu primeiro CD - Clouds Taken By The Wind -, fizeram a festa dos Thrashers de plantão, tais como: “Face To Face”, “Seeing Is Believing”, “Silence”, “Neither Priest Nor Demon”, “Shut Eyes”, e a inédita “Why Die”. Surpreendente!
Por motivos de organização preferi deixar o resultado da votação para o parágrafo final, antecipando, assim, a invasão do Ungodly no encerramento da festa. E que show! Som e iluminação matadores, presença de palco extraordinária e composições carregadas de repudio aos dogmas judaico-cristaos foram a máxima dos soteropolitanos. Executando seu debut auto-intitulado na íntegra, o quinteto passeou pelas já conhecidas: “Ungodly”, “Laid In Ashes”, “Murderes In The Name Of God” e “Perpetuating The Truth” numa maturidade técnica invejável. A banda atua de forma integrada, mesmo que a qualidade do baterista Thiago Nogueira e do baixista Joel Moncorvo (Slow) saltem imediatamente aos olhos. Ver a interação dos guitarristas Tony Assis e Daniel Oliveria, juntamente com um front man de respeito – Arnald Asmodeus (ex-Mystifier) -, apenas elevaram qualitativamente o peso da ótima “Possessed By The Lie” e da clássica “Hate celebration”. Para o grand finale ainda executaram, como vinham fazendo em todos os shows da tour, o cover para "War Ensemble” do Deus Slayer, destruindo fisicamente todos os fiéis fãs que os aguardavam.
Antecedendo o show da Ungodly, chegara o momento que todos aguardavam com nítida ansiedade. Numa das imagens mais marcantes de todo o festival, ver reunido um corpo de jurados qualificado, ao lado de um músico representante de cada uma das oito bandas, foi algo que despertou a esperança de vislumbramos uma cena mais consciente e unida num futuro próximo. Todos ali eram vencedores e dignos de efusivos aplausos, ainda que, apenas um tenha que representar a região na final em São Paulo. Sendo assim, contabilizando onze votos dos quinze possíveis, eis que a bancada do júri elegeu os baianos do Veuliah como vencedores do torneio. Muita comemoração e respeito mútuo entre todos, representaram os números finais de um dos capítulos mais respeitáveis do underground brasileiro. E que a periodicidade anual seja mantida!
Fotos: Meylin Salois


